Entrevista à Constança Saraiva e Mafalda Fernandes sobre as Conversas na Rua de Baixo

Captura de ecrã 2013-06-16, às 16.52.17

Link para a entrevista: http://www.ruadebaixo.com/conversas.html

CONVERSAS

A Comunicação é um ponto de encontro. Conversa com Constança Saraiva e Mafalda Fernandes

A Cultura em Portugal é um dos bens mais preciosos, e urge cultivar a sua divulgação a vários níveis. A confluência de interesses e as diferenças que regem os diferentes ramos culturais podem funcionar como um ponto aglutinador, algo que representa um pouco da portugalidade enquanto herança, enquanto iniciativa que extravasa conceitos espácio-temporais.

A Comunicação é, por excelência, a melhor forma de fazer divulgação e é nesse contexto que surge o projecto Conversas, um ponto de encontro que pretende reunir pessoas das mais variadas áreas e que promove encontros semanais com profissionais, da música ao design, da engenharia à medicina, da dança à antropologia, da dança à filosofia.

A ideia surgiu das cabeças da Constança Saraiva e da Mafalda Fernandes que, todas as quartas-feiras, reúnem convidados em dois ateliers na capital. Assim, “A Década” e “A Rosa”, no Bairro Alto, são o palco destas reuniões especiais onde se podem beber “médias” em troca de uma moeda de euro. A entrada é livre.

Para além das agradáveis e sempre surpreendentes conversas, esses encontros são registados em plataformas online (blog, facebook e streaming) e, de dez em dez Conversas, é feita uma publicação que arquiva os momentos passados no âmbito destas tertúlias faladas. A coordenação deste projecto, para além da Constança e da Mafalda, conta com a participação de designersconvidados, fotógrafos e tradutores, pois estas edições são bilingues (Português/Inglês).

Para ficarmos mais por dentro desta interessante iniciativa, estivemos à conversa com a Constança e a Mafalda.

conversas_inside

Como surgiu a ideia destas “Conversas”?

A Constança estudou Escultura na Faculdade de Belas-Artes, e lá para o final do curso decidiu deixar o trabalho com o ferro e as soldaduras para começar a trabalhar com pessoas. Hoje em dia interessa-se sobretudo pela prática artística que envolva pessoas e comunidades, tema que desenvolveu na sua tese de mestrado. A Mafalda licenciou-se em Design de Equipamento, na mesma faculdade, e quando lhe perguntam “O que andas a fazer?” ou “Estás a trabalhar na tua área?” fica sempre nervosa e inquieta. Normalmente a resposta é: “Estou a trabalhar em muitos projectos e sim, nenhum deles me dá dinheiro”. Na verdade, “Design é só uma das ferramentas que usa no seu dia-a-dia”.

Alguns anos depois de acabarmos a faculdade, onde ficámos amigas, apercebemo-nos que sabíamos muito pouco sobre os projectos quee cada uma e que os nossos amigos andavam a desenvolver, a pensar e a planear. Sentimos necessidade de saber o que é que questionavam, o que os intrigava, em que é que pensavam, e precisávamos de arranjar tempo para isto, tempo para estarmos uns com os outros para além de um café ou de um copo, para além de uma conversa superficial e do negativismo e frustração que tantos sentimos nos dias de hoje.

Decidimos, então, organizar um encontro todas as quartas-feiras, dia calmo da semana, para colmatar esta lacuna. Hoje em dia parece que não há tempo para falar das coisas com calma e agora às quartas-feiras é possível conversar sobre projectos, ideias e visões que verdadeiramente apaixonam os oradores e inspiram todos os participantes.

Sentem que a Cultura em Portugal é um “parente pobre”?

Infelizmente, como todos sabemos, a Cultura em Portugal, como em muitos outros Países, está a passar por períodos muito complicados. As Conversas nasceram para serem um momento de encontro, diálogo e discussão, com o objectivo de criar um momento mais social que cultural. A noção de discussão e de diálogo entre pessoas é muito importante; esta necessidade de encontro com o Outro e a falta de tempo para ele deve-se à economia capitalista em que vivemos actualmente. Também o aparecimento das novas tecnologias das últimas décadas, desde a televisão à internet em casa, criou um individualismo crescente e generalizado em todo o mundo ocidental. As principais estratégias na actualidade são a competição e especulação e têm influência e consequências directas em nós. Os seres humanos têm vindo a ser desencorajados do sentido de comunidade e de participar em actividades da esfera social. Isto reflecte-se sobretudo nas grandes cidades, como Lisboa. As Conversas são sintomáticas de uma necessidade do sentimento de comunidade e situam-se entre muitos outros projectos — artísticos, culturais e sociais — que nas últimas duas décadas têm vindo a surgir em Portugal e pelo mundo fora. O sentido comunitário tem sido afectado, mas, é por isso mesmo, que temos razões para desafiar tal pessimismo.  As Conversas são, mais do que um evento cultural, um lugar de possibilidades de novas parcerias, amizades e inspirações.

Como é feita a escolha dos convidados? Pensam em algum tema em particular e depois avançam ou optam por algo aleatório?

Acreditamos que todos os seres humanos têm algo de muito bonito para partilhar. As Conversas são um projecto despretensioso, acolhedor e aberto a todos. Os nossos “convidados”, a quem chamamos afectivamente de “Conversadores”, começaram por ser amigos,  passaram aos amigos dos amigos, e dos amigos dos amigos a interessantes desconhecidos. Neste momento também participam nas Conversas pessoas que se propõem de forma espontânea por terem ouvido falar da iniciativa já sem se saber muito bem por quem. A comunicação gerada nestas quartas-feiras cria um sentimento de pertença sentido por nós e por todos. Este sentimento levou-nos a uma conclusão — estamos todos a criar um lugar em comum. E estamos todos a criar uma comunidade das Conversas.

A ideia de registar o que se passa nas tertúlias em livro é uma forma de criar um arquivo especial ou um género de agradecimento aos convidados?

As publicações (feitas de dez em dez Conversas) funcionam, sim, como um arquivo de todos os conteúdos dos participantes e de projectos desenvolvidos por Conversadores no âmbito das Conversas. Foi desde o início uma forma de criar um objecto-memória dos momentos irrepetíveis que são as Conversas. São publicações independentes feitas com muito trabalho e energia, a edição e produção fazemos nós, as designers gráficas (até agora foram só meninas: Eva GonçalvesIsabel LucenaJoana Durães e Mariana Veloso) fazem a paginação, o Miguel Rodrigues faz as traduções e o Miguel Lopes e o Ricardo Pereira tratam das fotografias. Já tivemos, também, o apoio, sobretudo logístico, de várias entidades/pessoas: da Biblioteca Municipal Camões, da Epson, do projeto Eyesight, da Gráfica VMMG, do Sr. IlÍdio António, da Indústria Portuguesa de Tipografia, da Junta de Freguesia da Sé e da PhotoFinish. A tiragem das publicações impressas é muito pequena, (neste momento são 100 exemplares) o que torna estes livros objectos raros e de colecção! A publicação bilingue (Português e Inglês) justifica-se pelos vários Conversadores e público estrangeiro que regularmente aparecem nestas quartas-feiras, assim como o objectivo inerente em apresentar e divulgar o projecto além Portugal.

A versão online das primeiras três publicações está disponível no Facebook e no Blog das Conversas onde é também possível subscrever a newsletter do projecto.

Ao ver a vossas publicações online, entretanto esgotadas em formato livro, apetece fazer parte delas, participar. Têm notado maior adesão ao vosso projecto?

As duas primeiras publicações estão esgotadas, mas da terceira e da quarta ainda temos alguns números disponíveis. As primeiras três publicações estão acessíveis a todos na versão online (aquiaqui aqui). As publicações são um óptimo meio de comunicação das Conversas, e sentimos, sem dúvida, uma crescente adesão ao projecto. Temos todas as semanas novos curiosos e muitos deles fazem das Conversas um programa semanal, ao qual nunca mais deixaram de vir. Mas estas pessoas, na sua maioria, souberam do projecto através de amigos, e muitas também pelo facebook. Houve já várias Conversas em que a adesão foi de 50 ou 60 pessoas, mas este número de público não é de todo o nosso objectivo, aliás, o limite físico do espaço dos nossos ateliers é o ideal: quando o número de participantes é maior, é mais dificil atingir o ambiente de diálogo e intimidade que permite gerar um diálogo real.

Até quando vamos ter estas Conversas e que surpresas estão a ser preparadas?

As Conversas têm já um ano e meio de existência e estamos muito perto da quinquagésima Conversa! Dentro da sua simplicidade e descontracção, é um projecto que envolve muito trabalho, nosso e de todos os colaboradores, sem qualquer apoio financeiro. Enquanto tivermos energia e tempo para fazer Conversas todas as quartas-feiras, elas vão continuar a existir! Quanto a surpresas… estamos neste momento a trabalhar num pequeno trabalho de investigação, em que nos interessa uma parceria em contexto académico, que vai resultar num “Manual das Conversas”, uma espécie de manual de instruções para podermos levar as Conversas a outras cidades, e outros Países. Este Manual (uma publicação também bilingue) procurará analisar o projecto comparando-o com projectos semelhantes, e a partir das suas especificidades elaborar um modelo do projecto Conversas. A criação deste modelo permitirá a repetição e reprodução por qualquer pessoa ou entidade, em qualquer lugar, de uma forma pedagógica, acessível ao público em geral. Esperamos que a distribuição do “Manual das Conversas”, acompanhada por workshops e apresentações sobre o projecto, corresponda ao crescimento, democratização e acessibilidade das Conversas.

Entretanto, como já é habitual entre séries de dez Conversas, iremos fazer um intervalo para preparar a próxima publicação, cujo lançamento está agendado para julho na Fábrica Features Lisbon. Este evento será acompanhado de uma nova exposição com trabalho desenvolvido pelos colaboradores e o lançamento do site. No mesmo mês, vamos fazer parte do festival de arte pública Walk & Talk nos Açores e iremos continuar a desenvolver Conversas Paralelas, como são exemplo os workshops que têm acontecido.

Créditos das fotografias

Topo: Ricardo Jorge Pereira

Corpo do artigo: Mafalda Fernandes e Sara Orsi

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